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Uêvo Academy

Uêvo Academy | A Fisiologia de um mito: o que o corpo de Eliud Kipchoge nos ensina sobre correr SUB-2H na maratona.

02 Jul 2026

Crédito da imagem: Kipchoge: The Last Milestone.

Ele foi o primeiro. Agora, outros já cruzaram essa fronteira. Mas a ciência do corpo de Kipchoge continua fascinante. Agora, Kipchoge vem a Porto Alegre. E a ciência por trás disso é tão fascinante quanto a lenda.

No dia 12 de julho de 2026, Porto Alegre será palco de um dos momentos mais épicos do esporte brasileiro. Eliud Kipchoge — o maior maratonista de todos os tempos, bicampeão olímpico e o único ser humano a correr 42 km em menos de 2 horas — estará na linha de largada da NB 42K Porto Alegre. Enquanto nos preparamos para testemunhar a história, que tal entender o que acontece dentro do corpo de um homem capaz de desafiar os limites da fisiologia humana? Neste artigo, traduzimos e adaptamos o estudo publicado no Journal of Applied Physiology pela equipe do Professor Andrew Jones, que analisou os dados do projeto Breaking 2 da Nike.

1. O Estudo Que Revelou Os Segredos Dos Elites

Um artigo único foi publicado originalmente em 2020, no Journal of Applied Physiology. O Professor Andrew Jones e sua equipe reportaram dados fisiológicos de 16 corredores de elite de longa distância — incluindo o próprio Eliud Kipchoge — coletados durante o projeto Breaking 2 da Nike. Este estudo representa um marco na ciência do esporte, oferecendo métricas que antes eram mantidas sob sigilo industrial ou restritas a laboratórios de alta performance. Para se ter ideia do nível desses atletas: a meia-maratona média do grupo era de 59min53s, e a maratona completa, 2h06min53s. São dados verdadeiramente únicos, que nos dão uma janela para entender o que é preciso para correr uma maratona em menos de duas horas. A análise não foca apenas na força bruta, mas na harmonia perfeita entre sistemas metabólicos e mecânicos.

2. As Quatro Características Que Definem Um Maratonista de Elite

Crédito da imagem: NN Running Team.

Para correr uma maratona rápida, quatro variáveis fisiológicas são determinantes e precisam atuar em simbiose absoluta:

2.1 VO2 Máximo — O Motor Aeróbico

O VO2max sempre foi reconhecido como um pilar do desempenho — quanto mais oxigênio você consegue utilizar, mais energia produz para a contração muscular. O estudo revelou que o VO2máx médio dos 16 atletas era de 71 ml/kg/min. Esse número é alto, mas há registros na literatura de valores acima de 80 ml/kg/min. E mais: mesmo dentro desse grupo de elite, havia grandes diferenças individuais. Conclusão: VO2máx é importante, mas não conta a história inteira; ele é o tamanho do motor, mas não a eficiência do combustível.

2.2 Economia de Corrida — A Arma Secreta

A economia de corrida (ou eficiência) é talvez a variável mais importante e menos conhecida. Refere-se à quantidade de oxigênio necessária para correr a uma determinada velocidade. Um corredor mais econômico gasta menos oxigênio para se mover — essencialmente, "desperdiça" menos energia em movimentos que não o projetam para frente. Os corredores do estudo apresentavam uma oscilação vertical de apenas 4 cm. Isso significa que quase toda a potência gerada era convertida em movimento para frente, não para cima. O custo de oxigênio reportado foi de 191 ml por kg de peso corporal por km. Para comparação: Haile Gebrselassie, outro monstro do atletismo, apresentava 188 ml/kg/km em medições antes de seus recordes mundiais. Há quem atribua essa eficiência às panturrilhas mais curtas e tendões de Aquiles extremamente reativos desses corredores.

2.3 Limiar de Lactato — A Zona de Sustentação

Esse marcador refere-se à velocidade que pode ser mantida por um longo período sem o acúmulo excessivo de subprodutos metabólicos que causam a fadiga. Acima dessa velocidade, não é possível atingir um estado estável. No estudo, o limiar de lactato dos atletas estava em impressionantes 92% do VO2máx. Isso significa que eles conseguem operar quase no limite total de sua capacidade aeróbica por duas horas consecutivas, algo impensável para um corredor amador.

2.4 A Conta Que Fecha o Sub-2h

Com os dados médios de economia de corrida, os pesquisadores fizeram a conta: para correr uma maratona em 2h, um corredor de 59 kg precisa correr a um VO2 de 67 ml/kg/min — ou 4,0 L/min. E aqui vem o ponto mais fascinante: a economia de corrida pode ser influenciada pela nutrição. Se forçamos o corpo a usar mais gordura, o custo de oxigênio aumenta. Se forçamos a usar mais carboidrato, reduzimos o custo de oxigênio. Isso explica por que a estratégia nutricional de Kipchoge é tão rigorosa e baseada em alta densidade de carboidratos.

3. O Contexto Épico — Kipchoge em Porto Alegre

Crédito da imagem: Getty Images.

Tudo isso que você leu acima não é teoria abstrata. É a ciência que explica o que veremos no dia 12 de julho de 2026, quando Eliud Kipchoge estiver correndo as ruas de Porto Alegre na NB 42K. Kipchoge está em uma turnê mundial histórica: 7 maratonas em 7 continentes, e escolheu o Brasil como palco sul-americano. Porto Alegre — o palco sul-americano escolhido por ele, dez anos após ter conquistado o ouro olímpico em solo brasileiro, no Rio 2016 — será o cenário desse reencontro emocionante. Será a primeira vez que Kipchoge corre uma maratona oficial em solo brasileiro. Ele estará lado a lado com milhares de corredores amadores e profissionais. Não importa se você corre os 5K, 10K, 21K ou os 42K — você estará dividindo o asfalto com a lenda viva do esporte, observando de perto a biomecânica que desafiou a ciência. Em abril de 2026, dois novos nomes — Sabastian Sawe e Yomif Kejelcha — também cruzaram a barreira dos 120 minutos na Maratona de Londres. Kipchoge, como sempre, foi o primeiro a acreditar que isso era possível. E agora, em Porto Alegre, ele continua escrevendo sua história.

4. O Que Isso Significa Para Nós, Corredores Comuns

Você pode não ter um VO2máx de 71 ml/kg/min ou uma oscilação vertical de 4 cm, mas a ciência nos ensina algo poderoso: a eficiência se treina. A economia de corrida melhora com técnica, com fortalecimento específico, com corrida em terrenos variados e com nutrição inteligente. Cada um de nós pode buscar sua melhor versão, não necessariamente para correr sub-2h, mas para superar seu próprio limite pessoal. No dia 12 de julho, enquanto Kipchoge passa por você, lembre-se: você está testemunhando a fisiologia em seu estado mais puro e elevado. O "milagre" de Viena não foi sorte; foi a aplicação extrema de cada princípio científico aqui discutido.

📚 Biblioteca de Estudos Citados

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